Infância de Antigamente vs Infância da Atualidade
A infância de acordo com as etapas do desenvolvimento humano é fruto de variados processos evolutivos ao longo dos anos.
Durante vários anos, a palavra "criança" era simplesmente sinónimo de adulto mais pequeno, tendo os mesmos deveres e responsabilidade que estes. Nesta época as crianças trabalhavam tal como os adultos, não tendo assim possibilidade de estudar e crescer conforme a lei natural da vida, tendo assim de se formar como Ser de forma repentina e forçada. Felizmente, com o passar dos anos, esta realidade foi-se modificando, chegando ao ponto em que nos encontramos hoje em dia, sendo que se espera que nesta fase das suas vidas as crianças brinquem, vão a escola, e façam atividades para a sua idade. Hoje, e contrariando a realidade de antigamente, a formação e evolução das crianças faz-se a pensar no criar de um futuro adulto com formação académica e que usufruiu de uma infância saudável e natural, e não a formação somente necessária para o alfabetizar básica e que tinha por máximo objetivo, a obtenção rápida de um Ser para trabalho e fonte de rendimento.
Alguns autores, mais especificamente, autores da Idade Média, chegaram mesmo a considerar que nesta altura as crianças eram meros seres biológicos, com ausência de estatuto social e autonomia. Posteriormente, defendiam também que foi a partir da época renascentista que se começou a considerar socialmente a infância como algo importante na vida, isto deveu-se a múltiplas estratégias complexas como a criação de escolas direcionadas para a infância e/ou o estímulo por parte dos familiares.
A infância é na realidade uma construção social em constante (re)definição e (re)criação na atual sociedade. A infância deve ser vista como um processo relativo e diferenciado, esta varia mediante os contextos social, cultural e histórico em que se insere. Embora se procure insaciavelmente uma uniformização nos padrões de infância e um igualitário acesso a rede escolar, ao processo de escolarização e a uma infância digna e natural, por forma a criar uma infância vista globalmente como um processo homogéneo, ainda não é possível na totalidade, devido às diferenças de género, etnia, condições económico-sociais, entre outras.
A Importância do Lúdico
Consideramos o lúdico como parte integrante do mundo infantil na vida de todos os Seres Humanos. Os jogos e brinquedos fazem parte da infância das crianças, onde a realidade e o faz-de-conta se interligam, logo não deve ser visto apenas como diversão, mas sim, algo de grande importância no processo de ensino-aprendizagem durante a fase de infância, sendo, uma parte fulcral durante a infância das crianças.
A criança ao brincar e jogar envolve-se na brincadeira, chegando a colocar os seus sentimentos e as suas emoções nestas brincadeiras. Pode-se dizer que a atividade lúdica funciona como um elo de interligação entre os aspectos motores, cognitivos, afetivos e sociais. Portanto a partir do brincar, desenvolve-se a facilidade para a aprendizagem, o desenvolvimento social, cultural e pessoal e contribui para uma vida saudável a nível físico e mental.
O mundo infantil difere de uma maneira qualitativa do mundo adulto, no primeiro, há fantasia, faz-de-conta, sonhar e o descobrir. Por meio das brincadeiras - a ação mais comum da infância - a criança terá oportunidade de se conhecer e constituir-se socialmente, por meio destas brincadeiras e da interação que recebem por meio destas. Através da espontaneidade do brincar, a criança poderá explicitar as diferentes percepções concebidas dentro do seu contexto familiar e social.
A atividade lúdica é um instrumento que possibilita às crianças aprenderem a relacionar-se com outros, promove o desenvolvimento cognitivo, motor, social e afetivo. Através da brincadeira, a criança experimenta, descobre, inventa, adquire habilidades, além de estimular a criatividade, autoconfiança, curiosidade, autonomia, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento e da concentração devido à situação de alguns jogos e brincadeiras, consequentemente gerando uma maturação de novos conhecimentos.
Jogo Simbólico
É na infância que se inicia o "fantasiar", onde se faz um paralelo entre o mundo real e o imaginário. Devido à realidade ser difícil para ser assimilada e aceite pelas crianças, estas criam o seu próprio universo, onde encontram resoluções para tudo através das suas personagens imaginárias, super-heróis, princesas, fadas, monstros, bruxas, entre outros. A estes atribuem-lhes os seus próprios sentimentos, durante as histórias e os brinquedos que utilizam. Tome-se pelo seguinte exemplo, é a boneca que está com raiva porque a mãe se zangou com ela, ou o urso que está a chorar porque o pai foi trabalhar, ou seja, podemos assim percecionar que as crianças dão vida e sentimentos aos objetos inanimados como se fossem pessoas de verdade.
O jogo simbólico caracteriza-se pela representação da realidade através da imitação e do imaginário. Através do jogo simbólico, a criança passa a adquirir a capacidade de representar simbolicamente suas ações por meio da sua capacidade de pensar. Pode-se ter como exemplo, os bonecos/bonecas que as crianças fingem, como pai/mãe, filho/filha, as caixas de cartão que representam carros entre outras coisas, que simbolizam coisas objetos utilizados no mundo real.
“A criança brinca não porque não sabe falar, como querem alguns teóricos, mas “porque deseja”. O brincar da criança é determinado por desejos.” (Freud, 1976)
Tal como nos sonhos, em que a criança realiza as suas fantasias por meio das brincadeiras, também nas suas ações reais a criança recorre ao uso de brincadeiras.
Desenvolvimento Cognitivo
O desenvolvimento humano resulta de influências biológicas, intelectuais, sociais e culturais. Bock ou Beck? (2002) disse que “o desenvolvimento humano refere-se ao desenvolvimento mental e ao crescimento orgânico. O desenvolvimento mental é uma construção contínua, que se caracteriza pelo aparecimento gradativo de estruturas mentais.” O crescimento orgânico entende-se que estará ligado ao desenvolvimento físico do ser humano, o que acontece desde o nascimento.
Os conhecimentos são produzidos de forma espontânea pelas crianças, mediante o estágio de desenvolvimento em que esta se encontra. Para Piaget, a criança passa por quatro Estágios de Desenvolvimentos, sendo eles: o Estágio Sensório-Motor (0-2 anos); o Pré-Operatório (2-7 anos); o Estágio da Operações-Concretas (7-12 anos); e por último o Estágio das Operações Formais (após os 12 anos).
Bock, defendia que o desenvolvimento cognitivo é atrelado por mudanças tanto qualitativas como quantitativas relacionadas com os períodos anteriormente referido, permitindo que o individuo se construa e reconstrua a cada estrutura, tornando cada vez mais apto ao equilíbrio. As mudanças caracterizadas como qualitativas são referentes em números ou quantidade, como: peso, altura, tamanho do vocabulário, entre outras. Já, as quantitativas aludem a mudanças na estrutura do individuo, ou seja, são aprendizagens de novas habilidades, tomando como exemplo nas crianças, a comunicação não-verbal para a verbal.
A criança, à medida que evolui vai-se ajustando à realidade que a rodeia, e superando, de modo cada vez mais eficaz, as múltiplas situações/dificuldades com que se confronta. Na conceção de Vygotsky, a aprendizagem desenvolve-se a partir das relações sociais. O pensamento e linguagem são processos interdependentes, desde o início da vida. Para este, o sujeito é interativo, pois a partir das relações intra e interpessoais e de troca com o seu meio, passa a adquirir o conhecimento.
Promoção da Aprendizagem
Um dos objetivos do trabalho lúdico é o de auxiliar a criança a obter melhor desempenho na aprendizagem através da utilização de uma metodologia espontânea, divertida e recreativa. O lúdico age também como forma de comunicação das crianças, tornando a aprendizagem de acordo com o seu modo de ver o mundo, respeitando as suas características e raciocínios próprios.
Com a Era da Tecnologia, os brinquedos e os jogos eletrónicos vêm acompanhados de um manual, onde descreve todas as maneiras de brincar, para tal, diminui o processo de imaginação, fantasia e aumenta a comodidade das crianças, reduzindo a criatividade e o trabalho mental. Não é desvalorizando os avanços tecnológicos, pois estes apresentam importância na vida do Homem, mas a questão é o fato que esses instrumentos sejam utilizados de maneira inteligente, sem que crie uma dependência. As crianças acabam por se acomodar, pois os brinquedos dispensam a imaginação, e como consequência o resultado são crianças com mentes cada vez mais preguiçosas.
A introdução do lúdico na vida escolar do educando torna-se uma forma eficaz de transitar pelo universo infantil para imprimir-lhe o universo adulto. Promover uma alfabetização significativa e prática educacional é a proposta do lúdico. Através das atividades lúdicas na escola, de acordo Luckesi (2000) pode-se “auxiliar o educando a ir para o centro de si mesmo, para a sua confiança interna e externa; não é, também, difícil, coisa tão especial estimulá-lo à ação, como também ao pensar”.
É importante ressaltar, que a motivação do educador escolar para proporcionar a atividade lúdica é fundamental para que o aluno possa despertar o interesse de criar, desenvolver, participar, procurando a construção do conhecimento. O desenvolvimento lúdico nas práticas pedagógicas na escola não deve ser visto apenas como descontração, mas sim, como meio para o desenvolvimento do aprimoramento do raciocínio lógico, cognitivo e social de maneira espontânea e prazerosa para a criança.
Em suma, podemos concluir que devido ao mundo real ser de uma difícil assimilação, a criança cria o seu próprio universo, mais conhecido como as fantasias infantis. Nesse universo inventado/criado, elas fazem o paralelismo do imaginário com a realidade, e através das suas personagens imaginárias encontram resoluções para qualquer situação. Por meio do simbólico, os desejos e vontades são explicitados, além de permitir que a criança exponha e elabore também os seus conflitos e as suas angústias do mundo real.
Discentes: Lígia Louro Aguiar e Sara Freire Costa
Licenciatura: Educação Básica 1º Ano – Turma Diurna
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